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Notícias
- Artigos
sobre as
ciências do
esporte
O “aquecimento”
no futebol ou
a preparação
para o jogo:
uma idéia do
corpo
enquanto
máquina.

1) Por uma interpretação filosófica
Na metade final do século passado e o início desse,
o pensamento
científico e
filosófico,
se defrontam
com mais um
desafio; as
contradições
de seus
próprios
pensamentos.
Destacamos o
século
passado, por
que foi um
século que
presenciou
duas grandes
guerras
mundiais, e
estas duas
catástrofes,
serviram de
uma certa
forma para
grande parte
da humanidade
(re) pensar
conceitos e
contextos
referentes ao
próprio
sistema
social e a
vida no
planeta.
O grande questionamento,
passou a ser
o
desenvolvimento
da própria
ciência ainda
no século XX,
que numa
lógica da
produtividade,
transformou o
processo de
(des)
cobrimento
numa “produção”
de
conhecimentos,
atrelado com
isto a lógica
do sistema
econômico que
ganha forças
descomunais
neste século;
o sistema
capitalista.
A ciência
moderna foi
alvo de duras
críticas por
grande parte
do pensamento
crítico da
época, porque
era uma
ciência
utilitarista
(a serviço do
pensamento
dominante),
técnica e
instrumental.
A crítica
utilitária se
devia ao fato
desta ciência
servir a
manutenção do
“status
quo” na
auto-afirmação
do capital,
na questão
técnico/instrumental,
a crítica se
dava ao
entender que
a
racionalidade
científica
técnica/instrumental
era uma
racionalidade
que impedia o
ser humano de
pensar, mas
somente
exigia de
forma
automatizada
o saber
fazer.
Independente do porque,
onde,
quando,
para que,
e para
quem
fazer, -
perguntas do
mundo
filosófico -,
a
racionalidade
técnico/instrumental
em nome do
progresso
colocou a
vida humana
no planeta
sob situação
de risco. A
exploração da
natureza, a
devastação do
meio
ambiente, a
produção de
armamentos
biológicos,
os meios de
destruição em
massa, os
produtos
químicos, são
resultados de
uma forma de
pensamento em
que a
natureza é
apenas um
objeto de
domínio do
ser humano, e
cabe a esse
desvendar os
seus
mistérios sob
quaisquer
circunstâncias.
Pensamento de uma ciência
positivista,
a antiga
idéia do
sujeito
dominando o
objeto está
ainda
atrelada com
um passado um
pouco mais
distante. É
no pensamento
cartesiano em
pleno século
XV, e
posteriormente
no pensamento
da física
clássica que
esta relação
sujeito–objeto
ganha
consistência
e
solidifica-se.
Para René
Descartes
filósofo
francês, toda
a natureza
apresenta-se
à sua frente
como uma
grande
máquina,
dirigida por
um pensamento
superior.
Descartes em
seus estudos
destaca a
separação
essencial
entre o corpo
e mente (dualismo
cartesiano),
onde o corpo
(res
extensa)
deveria como
máquina, ser
governado
pela mente (res
cogitans).
Para o físico
Fritjof Capra,
“a
filosofia de
Descartes não
se mostrou
importante
apenas em
termos do
desenvolvimento
da Física
clássica; ela
exerce, até
hoje, uma
tremenda
influencia
sobre o modo
de pensar
ocidental.
(...) Em
conseqüência
da divisão
cartesiana,
indivíduos,
na sua
maioria, tem
consciência
de si mesmos
como egos
isolados
existindo
“dentro” de
seus corpos.
A mente foi
separada do
corpo,
recebendo a
inútil tarefa
de
controlá-lo,
causando
assim um
conflito
aparente
entre a
vontade
consciente e
os instintos
involuntários”[1].
Brilhante em seu tempo, pois
desenvolveu
grandes
teorias,
Descartes
hoje é mais
lembrado pela
sua famosa
frase:
“penso...logo
existo”.
Esta frase é
resultado de
uma série de
indagações
sua sobre
suas teorias
e sobre
inclusive sua
própria
existência.
Descartes
chega a
conclusão que
a única
possibilidade
para ele
estar vivo é
a condição
dele estar
pensando. Por
isso, a
famosa frase,
e também uma
crença
absoluta na
idéia da
mente como
superior em
relação ao
corpo.
A idéia de um corpo
funcionando
tal como uma
máquina é a
estratificação
do pensamento
de um mundo e
sistema
social também
funcionando
como uma
grande
máquina, onde
o todo é
representado
pela
justaposição
de suas
partes. O
corpo para
Descartes,
era apenas o
somatório de
peças
funcionando
de forma a
garantir o
funcionamento
deste todo.
Esse corpo
máquina era
desprovido de
sentidos e
significados,
apenas “peças”
em
justaposição,
o que no
pensamento
moderno, o
desgaste de
uma delas
pode ser
trocado por
outra de
mesma forma e
função,
continuando o
mesmo a
funcionar até
o seu
“desgaste”
total.
Atualmente
podemos “(...)
separar
partes do
corpo;
adicionar-lhe
próteses
artificiais;
implantes,
usar
aparelhos
para
prolongar a
vida do
corpo, mesmo
com a morte
cerebral;
transformar
os cadáveres
da escolas de
medicina em
cadáveres
digitais
estandardizados;
fazer
modificações
genéticas,
clonagem de
seres vivos;
gestação de
fetos em
útero
artificial ou
mãe de
aluguel;
reconstrução
cirúrgica de
corpos,
trabalho
muscular
específico e
ingestão de
substancia
químicas para
remodelá-lo”[2]
Se de alguma forma lembramos
Descartes
hoje apenas
pela sua
frase, porém
seu
pensamento
filosófico
está
impregnado em
nosso tempo.
A idéia de um
mundo
enquanto uma
grande
máquina
funcionando,
e a idéia de
um corpo
também
máquina, é
ainda
atualmente a
forma com que
grande parte
da humanidade
compreende a
si mesmo e o
universo. As
ciências
biomédicas e
nelas
principalmente
a medicina
tradicional,
introjetaram
de forma
consistente
este
pensamento, o
que faz
sentido a
partir do
momento em
que o corpo
humano é
dividido em
partes, e as
doenças sendo
tratadas na
relação
causa-efeito.
Como uma
máquina
funcionando,
qualquer
problema pode
ser
solucionado
analisando de
forma isolada
suas partes e
a
possibilidade
de “conserto”
de uma delas.
A Educação Física sendo uma
área que
muito próxima
esteve e
ainda está da
área
biomédica,
também
introjeta
para si o
mesmo
pensamento na
teoria dos
desportos, ou
seja, que o
corpo humano
é uma grande
máquina posta
em
funcionamento.
Diversas são
as formas com
que nos
direcionamos
ao corpo
interpretando-o
como uma
máquina.
Frases como “o
atleta está
quebrado”,
“o atleta
tal não
rendeu o
suficiente”
“meu corpo
funciona como
um relógio"
, são
pensamentos
que
demonstram
nosso
entendimento
do corpo como
tal.
Quando falamos em ir pro
“aquecimento”,
o que na
verdade
estamos
fazendo é uma
apologia a
idéia do
corpo, que
assim como um
carro
necessita
estar
aquecido para
enfrentar uma
exigência
mais forte do
“motor”.
Em pleno século XXI, temos
ainda uma
imobilidade
em entender o
ser humano
como um Ser
plural e uno
ao mesmo
tempo, ou
seja, um ser
social,
cultural,
biológico e
sentimental.
Diferentemente
da máquina, o
ser humano é
provido de
sentidos e
significados,
marcas e
registros que
trazem em si
um forte
entrelaçamento
entre
natureza e
cultura.
Nosso corpo
traz em si
memórias de
uma natureza
mais
primitiva, e
de uma
cultura mais
contemporânea,
impossíveis
de serem
pensadas na
mais moderna
máquina,
simplesmente
porque estas
memórias
estão nas
expressões
dos sentidos,
das emoções,
e no próprio
corpo.
Se estamos diante de novos
paradigmas
científicos,
principalmente
os da física
moderna (física
quântica e
teoria da
relatividade)
que apontam
para a
superação da
matéria
inerte
movimentada
por uma ordem
superior e/ou
exterior –
idéia
semelhante a
teoria de
Descartes
sobre a mente
regendo o
corpo -, se
percebemos os
novos
paradigmas
que colocam o
ser humano
como um Ser
holístico em
perfeita
integração e
harmonia com
o seu meio,
com o planeta
e consigo
mesmo, se não
nos é mais
concebível a
idéia de um
corpo/máquina,
precisamos
também de
alguma
maneira
romper com os
conceitos
e palavras
que
explicavam e
legitimavam
uma antiga
visão de
mundo.
Falar em aquecimento
do atleta, é
reproduzirmos
antigas
idéias ainda
hoje
introjetadas
em nosso meio
esportivo -
que nas
últimas
décadas pouco
avançou no
entendimento
de corpo e
movimento
humano,
exceção feita
aos
conhecimentos
fisiológicos,
biológicos e
químicos, que
também nada
mais são que
uma
interpretação
fragmentária
e
reducionista
do Ser
humano.
Falarmos em
aquecimento
é
dimensionarmos
o Ser humano
à condição
máquina,
portanto não
pensante,
insensível,
insignificante,
produtivo
enquanto
“produz”
rendimento.
Esta temporada junto ao
Sport Club
Rio Grande,
estamos
construindo
uma outra
dimensão de
pressupostos
esportivos e
visão de
atleta.
Estamos
dialogando
com os novos
paradigmas
tanto na
Educação
Física quanto
na ciência em
sua forma
geral, onde a
reconciliação
do sujeito
consigo mesmo
e com a
natureza (interna
e externa),
e a superação
da visão
científica
onde o
sujeito[3],
não predomine
sobre o
objeto[4],
pois isso
ainda é uma
pobreza
científica do
modelo
positivista,
mas pelo
contrário,
que sujeito e
objeto
interajam
numa simbiose
em que os
dois sejam
respeitados
como seres
providos de
sentidos e
significados,
cada um
fazendo parte
e sendo
importante
numa mesma
rede de
conexão
chamada vida.
2)
Por uma
interpretação
fisiológica
Buscamos nessa abordagem,
lançar um
olhar crítico
e mais
aprofundado
sobre um
fenômeno
importante
que, como
quase tudo no
futebol é
visto de
forma
superficial e
definitiva.
Os exercícios de preparação
IMEDIATA
(aquecimento)
para o
esporte se
diferenciam
dos de
PREPARAÇÃO
DESPORTIVA DE
LONGO PRAZO
na sua
intensidade e
duração e
também nos
objetivos,
pois se esse
se destina a
proporcionar
alterações
crônicas no
metabolismo,
aquele se
destina às
alterações
AGUDAS/IMEDIATAS
do mesmo. Na
preparação
desportiva o
“aquecimento”
ou preparação
para o jogo
deve levar em
conta vários
aspectos em
seu
planejamento,
entre eles, a
ergogênese do
esporte, os
aspectos
biomecânicos,
os aspectos
fisiológicos,
os aspectos
neuromotores,
os aspectos
psicológicos,
o metabolismo
energético
etc, pois
todos esses
recursos
deverão ser
mobilizados
nessa
atividade sem
serem
depletados,
saturados ou
fatigados.
MOBILIZAÇÃO DOS ASPECTOS
BIOMECÂNICOS:
Conseguida
através dos
exercícios
específicos
do jogo, o
drible, o
passe, os
deslocamentos
etc.
MOBILIZAÇÃO DOS ASPECTOS
NEUROMOTORES:
Enfatizada
através dos
exercícios de
coordenação,
da
propriocepção
e dos gestos
técnicos.
MOBILIZAÇÃO DOS ASPECTOS
FISIOLÓGICOS:
Abordada
através das
intensidades
ideais de
sobrecarga
dos sistemas
aeróbio e
anaeróbio.
MOBILIZAÇÃO DOS ASPECTOS
PSICOLÓGICOS:
Abordada
através de
estímulos das
capacidades
sensoriais,
com estímulos
visuais,
auditivos e
até mesmo
emocionais,
com palestras
ou palavras
motivacionais
que visam a
substituição
de sensações
desagradáveis
por sensações
e sentimentos
agradáveis.
Todos esses aspectos
abordados são
dependentes
da
mobilização
otimizada dos
diversos
sistemas que
compõe o
organismo do
atleta.
SISTEMA OSTEOMUSCULO/TENDINOSO:
Atividades
que enfatizem
as contrações
e relaxamento
muscular e as
junções
osso-musculo-tendão,
abordadas nos
exercícios de
força, nos
alongamentos
e nos
multi-saltos.
SISTEMA NERVOSO CENTRAL E PERIFÉRICO:
Atividades
que exigem
atenção/concentração,
enfatizadas
através de
ações
neuromotoras,
como gestos
técnicos e
coordenativos
e estímulos
sensoriais
variados.
SISTEMA CARDIOVASCULAR:
Atividades
que alteram a
freqüência
dos
batimentos
cardíacos o
fluxo
sanguíneo e
por
conseqüência
alteram o
estado de
equilíbrio
térmico, a
captação e
distribuição
de oxigênio e
outros
nutrientes a
todos os
sistemas que
estão sendo
utilizados.
Esse sistema
exige uma
atenção
especial,
pois a
intensidade
do estímulo
será
determinante
no
recrutamento
das fontes
energéticas a
ser
enfatizadas
(aeróbio ou
anaeróbio).
Devemos lembrar sempre, que
não é
possível
recrutar ou
mobilizar um
determinado
sistema sem
que haja
mobilização
significativa
de outro,
portanto não
há exercício
ou atividade
que isole um
determinado
aspecto para
enfatizar o
outro. Isso
deve ser
levado em
consideração
para que não
seja colocado
um numero
excessivo de
atividades
quando
podemos
selecionar
dois ou três
exercícios
que irão
atingir os
objetivos sem
fatigar o
atleta,
considerando
que treinar
bem não tem
nada a ver
com cansar
muito. O
cansaço é um
fenômeno
causado pelo
treino, porém
não devemos
poupar
esforços no
sentido de
minimizá-lo,
sob pena de
redução da
performance e
aumento da
indisposição
para o
treino, algo
indesejável
para o
treinador e
para o
atleta.
Levando-se em
conta toda
essa
complexidade
que envolve a
preparação
para o jogo,
nos propomos
a rediscutir
esse
conceito, que
muitas vezes
se resume em
uma simples
palavra:
“aquecimento”.
Palavra esta
que no máximo
serve para
definir uma
conseqüência
do exercício,
pois a
elevação da
freqüência
cardíaca
estimula o
fluxo
sanguíneo
melhorando a
viscosidade
do sangue e
das
estruturas
irrigadas com
uma elevação
média de
apenas 0,08
ºc da
temperatura
corporal,
sendo que
essa elevação
pode ser um
pouco maior
pela
influencia da
temperatura
ambiente.
A
temperatura
corporal do
organismo em
estado de
equilíbrio
hemotérmico,
em média fica
em torno dos
37ºc. Sendo
considerado
normal uma
elevação em
torno de 1ºc
a 1,5°c em
situações de
estresse
moderado
(exercício)
essa elevação
serve para
colocar os
segmentos
corporais em
estado de
alerta e ou
prontidão
para
preservação
da vida.
Elevações
superiores
devem ser
evitadas,
pois provocam
alterações no
estado de
equilíbrio
orgânico
sendo
considerado
estado
patológico, e
nesse estado
há
comprometimento
da
performance e
da saúde do
atleta, por
isso o
organismo
possui
mecanismos de
prevenção
chamados de
reguladores
hemodinâmicos,
que são
sistemas que
por sua
complexidade
precisariam
de uma
abordagem
específica,
pois envolvem
sistema
urinário,
sensóriomotor,
termoreguladores,
etc... Os
exercícios de
preparação
para o jogo
“aquecimento”
devem ser
realizados
levando-se em
conta essa
variedade de
fatores:
temperatura
ambiente,
ergogênese do
esporte,
especificidade,
hidratação e
individualidade
biopsicosocial
do atleta.
Professores:
Taimar
Marinho
taimarinho@educacaofisica.com.br
Julio Couto
futebolbrasil@pop.com.br
[1] Fritjof Capra – O Tão da Física: Um paralelo entre a
Física
Moderna e o
misticismo
Oriental.
Ed. Cultrix
(1983).
[2] Ana Márcia Silva – Corpo, ciência e Mercado: reflexões
acerca da
gestação de
um novo
arquétipo de
felicidade.
Ed. Da UFSC
2001.
[3] Como sujeito, entendemos a figura do cientista, do
professor, ou
qualquer
outro que
faça
perguntas
sistemáticas
à natureza.
[4] Por objeto, entendemos todos os fenômenos dignos de
observação,
entre eles os
próprios
seres
humanos.
Denise Veiga
- Assessora
de Imprensa

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